1. Home  >
  2. Blog  >
  3. Como dimensionar o sistema para cargas com pico de partida

Como dimensionar o sistema para cargas com pico de partida

Compartilhe:
Como dimensionar o sistema para cargas com pico de partida

Ligar um equipamento e vê-lo funcionar não significa, necessariamente, que o sistema elétrico está corretamente dimensionado.

Em um motorhome, cargas como ar-condicionado, geladeiras com compressor, bombas e outros equipamentos com motores podem exigir muito mais do sistema durante a partida do que durante o funcionamento normal. Esse comportamento precisa ser considerado no dimensionamento do inversor, das baterias, dos cabos, das conexões e das proteções.

Essa solicitação temporariamente elevada é conhecida como pico de partida.

Embora possa durar pouco tempo, o pico é suficiente para exigir simultaneamente de diferentes partes do sistema elétrico. Por isso, analisar somente a potência nominal informada na carga pode levar a um dimensionamento incompleto.

 

O que acontece no momento da partida?

Imagine um ar-condicionado instalado em um motorhome.

Depois que o compressor entra em funcionamento e se estabiliza, o equipamento passa a trabalhar dentro de determinada faixa de potência. No instante da partida, porém, o comportamento é diferente.

O compressor precisa sair do repouso e iniciar seu movimento. Nesse curto período pode ocorrer uma demanda de potência significativamente superior àquela observada durante o funcionamento normal.

É justamente nesse momento que um sistema aparentemente adequado pode apresentar problemas: o inversor pode entrar em proteção, a tensão das baterias pode cair excessivamente, perdas nos cabos e conexões podem se tornar mais relevantes ou uma proteção pode atuar.

Potência contínua

É a potência necessária para manter o equipamento funcionando depois que sua operação se estabiliza.

Potência de partida ou surto

É a demanda temporariamente maior que pode ocorrer no momento em que determinadas cargas são acionadas.

Um dimensionamento adequado precisa atender às duas condições.

 

O inversor precisa suportar mais do que a potência nominal da carga

Um erro comum é comparar somente a potência indicada no equipamento com a potência nominal do inversor.

Se a carga opera dentro da potência contínua disponível, isso é um bom começo. Porém, ainda é necessário responder a outra pergunta:

O inversor consegue fornecer a potência necessária durante a partida?

Os inversores possuem limites de operação contínua e também limites para sobrecargas ou surtos de curta duração. A magnitude e o tempo durante os quais essa condição é suportada dependem das características de cada equipamento.

Portanto, não basta encontrar no catálogo uma potência de pico elevada. É necessário avaliar também por quanto tempo essa potência pode ser fornecida e em quais condições.

Da mesma forma, não existe uma relação universal afirmando que determinado ar-condicionado sempre exigirá uma quantidade específica de vezes sua potência nominal durante a partida. Tecnologia do compressor, temperatura, pressão do sistema, características construtivas e recursos eletrônicos de partida podem alterar esse comportamento.

 

Do lado CC, a corrente pode se tornar elevada rapidamente

Quando um equipamento de corrente alternada é alimentado por um inversor, a energia precisa primeiro sair do banco de baterias em corrente contínua.

Enquanto o equipamento pode operar em uma tensão CA relativamente elevada, o banco de baterias normalmente trabalha em uma tensão CC menor. Consequentemente, para transferir uma potência elevada pelo lado CC, podem ser necessárias correntes muito maiores.

Relação básica entre potência, tensão e corrente

P = V × I

Na prática, quando existe um inversor no sistema, também é necessário considerar sua eficiência e as condições reais de operação.

Uma forma simplificada de estimar a corrente solicitada das baterias é:

I ≈ P / (V × η)

  • I é a corrente aproximada no lado CC;
  • P é a potência solicitada;
  • V é a tensão do banco de baterias;
  • η representa a eficiência do sistema de conversão.

Durante um pico de partida, se a potência exigida aumenta rapidamente, a corrente retirada das baterias também aumenta. E essa corrente precisa percorrer todo o caminho entre o banco de baterias e o inversor.

 

O problema pode não estar no inversor

Quando uma carga não consegue partir, é comum que o primeiro suspeito seja o inversor. Mas ele é apenas uma parte do sistema.

Imagine que o inversor tenha capacidade suficiente para atender à partida do equipamento. Para entregar essa potência, ele precisa receber energia adequadamente do banco de baterias.

Se houver resistência excessiva no caminho, a tensão disponível na entrada do inversor pode cair justamente no momento de maior demanda. Essa queda pode fazer com que o equipamento interprete a condição como bateria descarregada ou subtensão e acione sua proteção.

 

Queda de tensão: pequenas resistências fazem diferença

Todo condutor possui alguma resistência elétrica. Em condições de corrente elevada, mesmo valores aparentemente pequenos passam a produzir uma queda de tensão relevante.

ΔV = I × R

Quanto maior a corrente, maior tende a ser a queda de tensão para uma mesma resistência.

Por isso, em sistemas de baixa tensão e alta potência, não basta verificar apenas se o cabo suporta termicamente determinada corrente. Também é necessário analisar:

  • seção dos condutores;
  • comprimento total do circuito;
  • qualidade das terminações;
  • quantidade de conexões;
  • barramentos;
  • chaves e dispositivos intermediários;
  • fusíveis e porta-fusíveis;
  • resistência dos próprios contatos.

Um cabo pode não apresentar aquecimento crítico e, ainda assim, provocar uma queda de tensão indesejada para aquela aplicação.

Comprimento também importa

Quanto maior o percurso entre as baterias e o inversor, maior tende a ser a resistência do circuito. Por isso, sistemas de alta corrente normalmente se beneficiam de trajetos curtos e corretamente dimensionados entre o banco de baterias e o inversor.

Também é importante lembrar que o circuito não termina quando o cabo chega ao equipamento. A corrente percorre a ida e o retorno. O dimensionamento deve considerar o caminho elétrico completo.

 

A bateria também precisa conseguir entregar o pico

Ter energia armazenada suficiente não significa, necessariamente, ter capacidade para entregar qualquer potência. São conceitos diferentes.

Capacidade energética

Indica, de forma simplificada, quanto de energia existe disponível no banco e influencia diretamente a autonomia.

Capacidade de descarga

Está relacionada à intensidade com que essa energia pode ser fornecida ao sistema em determinado momento.

Uma bateria pode ter autonomia suficiente para manter determinada carga funcionando e, ainda assim, encontrar limitações diante de uma solicitação elevada de corrente.

Em baterias de lítio, por exemplo, também deve ser considerada a capacidade de descarga permitida pelo conjunto e pelo sistema de gerenciamento da bateria. Se o limite for ultrapassado, o BMS pode atuar para proteger o banco.

Em outras tecnologias, características como resistência interna, estado de carga, temperatura, envelhecimento e condição das baterias também influenciam a tensão disponível sob carga.

Portanto, a pergunta não deve ser somente:

“Quanto tempo essa bateria consegue alimentar meu ar-condicionado?”

Também é necessário perguntar:

“Esse banco consegue fornecer a corrente necessária para a partida e para o funcionamento desse sistema?”

 

Estado de carga influencia o comportamento

Um teste realizado com as baterias totalmente carregadas não representa necessariamente todas as condições encontradas durante uma viagem.

Conforme o estado de carga muda, o comportamento elétrico do banco também pode mudar. Isso significa que um sistema capaz de realizar uma partida em condições favoráveis pode apresentar comportamento diferente quando as baterias estiverem mais descarregadas ou quando outras cargas estiverem sendo utilizadas simultaneamente.

 

As outras cargas do motorhome continuam existindo

Outro erro é dimensionar o sistema considerando uma única carga isoladamente.

Na prática, enquanto o ar-condicionado tenta partir, outros equipamentos podem estar funcionando. Iluminação, geladeira, bombas, eletrônicos, carregadores e outros consumidores podem utilizar energia simultaneamente.

Portanto, a potência disponível para a partida não deve ser analisada como se todo o sistema estivesse dedicado exclusivamente ao equipamento em questão. É necessário observar a simultaneidade das cargas.

 

Proteção elétrica também faz parte do dimensionamento

Fusíveis e disjuntores não devem ser tratados apenas como acessórios instalados depois que os cabos e equipamentos já foram escolhidos. Eles fazem parte do projeto.

Uma proteção precisa atuar quando realmente existe uma condição perigosa, mas não deve provocar desligamentos indevidos durante condições normais previstas pelo sistema.

Em aplicações com picos de partida, é necessário considerar:

  • capacidade dos cabos;
  • corrente esperada de operação;
  • capacidade dos componentes;
  • corrente máxima prevista;
  • características do banco de baterias;
  • capacidade de interrupção necessária.

A lógica não deve ser simplesmente instalar uma proteção maior quando ela atua. Primeiro, é necessário entender por que o desligamento está acontecendo. Aumentar o valor da proteção sem verificar cabos, equipamentos e condições de instalação pode comprometer justamente a função de proteção do circuito.

 

O ar-condicionado é um bom exemplo, mas não existe uma resposta universal

É comum perguntar:

“Qual inversor preciso para ligar meu ar-condicionado?”

A resposta depende de mais informações.

Dois aparelhos com potência nominal semelhante podem apresentar comportamentos diferentes na partida. Além disso, dois motorhomes utilizando o mesmo ar-condicionado podem ter resultados diferentes devido ao banco de baterias, comprimento dos cabos, tensão do sistema, conexões, inversor utilizado e demais cargas ligadas simultaneamente.

O que precisa ser analisado?

CritérioO que observarImpacto no sistema
Carga Potência contínua e comportamento durante a partida Define a demanda que o sistema precisa atender
Inversor Capacidade contínua, sobrecarga e duração do surto suportado Determina se a carga pode ser alimentada durante a partida e operação
Banco de baterias Tensão, capacidade de descarga e limites do BMS quando aplicável Define a corrente que pode ser entregue ao inversor
Cabos e conexões Seção, comprimento, terminações, barramentos e pontos de conexão Influenciam diretamente a resistência e a queda de tensão
Proteções Corrente prevista, características da carga e capacidade dos componentes Protegem o circuito sem provocar atuações inadequadas em condições normais previstas

É a combinação desses elementos que determina o comportamento do sistema.

 

Soft starter resolve o problema?

Em algumas aplicações, dispositivos ou tecnologias de partida podem reduzir a intensidade do pico exigido pelo equipamento. Isso pode facilitar a operação da carga em sistemas alimentados por inversores.

Porém, isso não significa que um recurso desse tipo corrija automaticamente um sistema subdimensionado. Se os cabos são inadequados, o banco de baterias não suporta a corrente necessária ou existem conexões com resistência elevada, esses problemas continuam existindo. O dispositivo de partida deve ser considerado como parte da solução, e não como substituto de um dimensionamento adequado.

 

Como testar o sistema corretamente

Depois do dimensionamento teórico, o comportamento real deve ser verificado. Um teste útil não consiste apenas em confirmar que o equipamento ligou.

É interessante observar o sistema durante a partida e durante sua operação, avaliando principalmente:

Tensão no banco de baterias
Tensão na entrada do inversor
Corrente solicitada
Comportamento do inversor na partida
Atuação das proteções
Aquecimento anormal de cabos ou conexões
Estabilidade após a partida
Funcionamento com cargas simultâneas

Comparar a tensão medida diretamente nas baterias com a tensão disponível na entrada do inversor durante uma carga elevada também pode revelar perdas no caminho elétrico. Se existe uma diferença significativa entre esses pontos, vale investigar cabos, conexões, barramentos, chaves e proteções.

 

Um sistema bem dimensionado não depende de um único componente

Quando uma carga com pico de partida apresenta dificuldades, procurar simplesmente um inversor maior pode não resolver o problema.

Da mesma forma, instalar cabos maiores não compensa uma bateria incapaz de entregar a corrente necessária. E aumentar a capacidade do banco não corrige uma conexão inadequada.

Em um sistema elétrico de motorhome, o desempenho final é resultado do conjunto. Bateria, cabos, conexões, proteções, inversor e carga precisam trabalhar dentro de condições compatíveis entre si.

 

Antes de escolher a potência, conheça a aplicação

O dimensionamento adequado começa entendendo o que realmente será alimentado.

Antes de definir o sistema, é importante responder:

  • Quais equipamentos serão utilizados?
  • Quais possuem pico de partida?
  • Quais podem funcionar simultaneamente?
  • Por quanto tempo serão utilizados?
  • Qual é a tensão do banco de baterias?
  • Qual é a distância entre as baterias e o inversor?
  • Qual é a capacidade de descarga disponível?

Essas informações permitem sair de uma escolha baseada apenas em potência nominal e construir uma solução adequada ao uso real do motorhome. Quando existem cargas de maior potência, especialmente equipamentos com motores e compressores, essa análise se torna ainda mais importante.

Em resumo

Dimensionar um sistema para cargas com pico de partida exige olhar além da potência indicada na carga. É preciso verificar o comportamento do equipamento na partida, a capacidade do inversor, a corrente solicitada do banco de baterias, a capacidade de descarga, a queda de tensão, os cabos, as conexões e as proteções.

O sistema deve ser analisado como um conjunto. É essa visão que permite obter uma instalação mais adequada às condições reais de uso.

Precisa dimensionar um sistema para cargas com pico de partida?

A Technomaster pode auxiliar na análise da aplicação, considerando inversor, banco de baterias, corrente no lado CC, cabos, proteções e características das cargas.

Solicite apoio técnico para o dimensionamento do seu sistema.

Compartilhe:

PERGUNTAS FREQUENTES

Porque o compressor pode exigir temporariamente uma potência maior durante a partida do que durante seu funcionamento estabilizado. Além da capacidade do inversor, o resultado também depende do banco de baterias, dos cabos, das conexões e da queda de tensão do sistema.
Não. A potência contínua é apenas uma das informações necessárias. Também é preciso avaliar a capacidade de sobrecarga ou surto do inversor e por quanto tempo essa condição pode ser sustentada.
O banco de baterias trabalha em corrente contínua e normalmente em uma tensão menor que a tensão utilizada pela carga em corrente alternada. Para transferir uma potência elevada em uma tensão menor, a corrente necessária aumenta.
Não necessariamente. Capacidade energética e capacidade de descarga são características diferentes. A bateria pode armazenar energia suficiente para proporcionar determinada autonomia e, ainda assim, não conseguir fornecer a corrente exigida durante um pico de partida.
Em sistemas de baterias de lítio, o BMS possui limites de operação definidos para proteger o banco. Se as condições de descarga ultrapassarem esses limites, o sistema de gerenciamento pode atuar.
Sim. Correntes elevadas podem provocar quedas de tensão relevantes em cabos, conexões, barramentos, fusíveis e outros componentes do circuito. Se a tensão disponível na entrada do inversor cair excessivamente, ele pode entrar em proteção.
Sim. A capacidade térmica do cabo é apenas um dos critérios. Em sistemas de baixa tensão e alta corrente, a queda de tensão também precisa ser considerada.
Não. Em determinadas aplicações, tecnologias de partida podem reduzir a intensidade do pico, mas não corrigem problemas como cabos inadequados, limitações do banco de baterias, conexões com resistência elevada ou outros componentes subdimensionados.
Porque essa é uma condição mais próxima da utilização real do motorhome. Enquanto uma carga tenta partir, iluminação, geladeira, bombas, carregadores e outros equipamentos podem estar consumindo energia simultaneamente.
É necessário conhecer a potência contínua da carga, seu comportamento na partida, a capacidade do inversor, a tensão e capacidade de descarga do banco de baterias, os limites do BMS quando aplicável, os cabos, a queda de tensão, as proteções e as demais cargas que podem funcionar simultaneamente.
AVISO DE COOKIES

Utilizamos cookies para lhe proporcionar a melhor experiência em nosso site.
Para mais informações, consulte a nossa Política de Privacidade.